FÍSICA SEM EDUCAÇÃO

A única maneira de fazer o Brasil progredir é com educação, informação e caráter.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Pela revogação da lei da Reforma do Ensino Médio e retirada da proposta da BNCC

Muitos professores ainda não entenderam a gravidade da Reforma do Ensino Médio ou se recusam a entender. A união nesse momento é imprescindível para que essa lei não entre em vigor, já que não conseguimos barrá-la.
                                                       Ilustração: Toni D'agostinho

"NOTA PÚBLICA PELA REVOGAÇÃO DA LEI DA REFORMA DO ENSINO MÉDIO – Nº. 13415/2017 E RETIRADA DA PROPOSTA DE BNCC APRESENTADA EM ABRIL DE 2018.

O Comitê do Ensino Médio da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS), a Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS) vêm a público requerer junto ao Ministério da Educação (MEC) e à Presidência da República a revogação da Lei nº. 13415/2017, que reforma o Ensino Médio, bem como a retirada da proposta de Base Nacional Curricular Comum (BNCC) apresentada em abril de 2018 e que está sendo debatida em audiências públicas.
Estamos nos unindo as mais variadas vozes de entidades científicas e de estudiosos(as) da educação que a despeito das diferentes posições políticas e de concepções sobre o sistema nacional de educação, têm concordado e reiterado que essa proposta de Ensino Médio aprofunda as desigualdades sociais e educacionais no Brasil.  Desde a publicação da Medida Provisória MP 746/2016 que a SBPC, a SBS, a ABA, a ABECS, a ANPOCS, ANPOF, a ANPED, entre outras entidades científicas, pronunciaram-se contrárias à proposta de um Ensino Médio amorfo, sem os componentes curriculares que sustentam as formações nas diferentes profissões e áreas de atuação, incluindo-se a de formação de professores(as).
As críticas também ressaltavam a falta de tempo para um debate amplo com toda a sociedade e com os sujeitos diretamente envolvidos com as escolas, como por exemplo, os(as) estudantes e professores(as). Os(As) estudantes e professores(as) do Ensino Médio manifestaram-se, enfaticamente, contrários a essa reforma, mobilizando milhares de jovens que ocuparam as escolas em vários Estados da federação, em 2016. Ao contrário da propaganda oficial, é forte a reação contrária ao cenário proposto para o Ensino Médio, tanto por parte de pesquisadores(as) universitários(as), como das comunidades escolares que estão na base do sistema educacional.
Essa reforma representa a negação dos direitos de aprendizagem dos(as) estudantes brasileiros(as), especialmente dos(as) oriundos(as) das classes populares, que há muito pouco tempo conseguiram chegar ao Ensino Médio, ainda não universalizado no Brasil, haja visto que atinge cerca de 68% de matrículas na idade escolar de 15 a 17 anos. Se somarmos os(as) jovens adultos(as) que tentam voltar a esse nível de ensino, teremos um contingente enorme que precisa ser incluído nas escolas. Com tanto esforço para chegar ao Ensino Médio, esses sujeitos têm direito a uma educação de qualidade, com conteúdos científicos, componentes curriculares diferentes e que os prepare para a inserção no mundo do trabalho, nas Instituições de Educação Superior e, sobretudo, à participação na vida cultural, social e política, exercendo plenamente a cidadania, conforme prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9394/1996).
A referida Lei e a proposta de BNCC de 2018 não garantem a obrigatoriedade de oferta dos cinco itinerários formativos em todas as escolas e estados e nem os treze componentes curriculares vigentes até então. Retiram das escolas todos os conteúdos, garantindo apenas as disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática, empobrecendo o currículo escolar. Estabelece, assim, a oferta de uma “escola pobre para os pobres”, retrocedendo em, pelo menos, duas décadas no debate educacional do país. 
Em especial, as entidades científicas signatárias dessa nota expressam sua revolta com a exclusão das disciplinas da área de Ciências Humanas, entre as quais, a Sociologia, privando nossos(as) estudantes dos conteúdos de Ciências Sociais indispensáveis à compreensão crítica da realidade e à tomada de posição política. Não é possível o atendimento dos propagados objetivos da atual reforma do Ensino Médio sem a oferta de disciplinas da área de Ciências Humanas no currículo escolar.   
Considerando, então, a forma antidemocrática com que essa Lei e a essa proposta de BNCC foram elaboradas e impostas ao país, e a consequente destruição do Ensino Médio em seu caráter universalizante, como última etapa da Educação Básica no Brasil, exigimos a revogação da Lei nº. 13415/2017 e a retirada da proposta de BNCC apresentada em abril de 2018.
As entidades signatárias dessa nota assumem uma posição em defesa da qualidade da educação brasileira e conclamam o Governo Federal a dialogar com especialistas da área. O futuro de nossa  juventude e do Brasil está em jogo. 


Brasília, 17 de julho de 2018
Comitê do Ensino Médio da Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS),
Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS)
Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia da Associação Brasileira de Antropologia (ABA).
Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS)." 

terça-feira, 17 de julho de 2018

Terra plana?





É muito engraçado vê argumentos de Terra planistas, realmente a única vantagem em debater esse tipo de argumento é o de adquirir mais conhecimento. Aos alunos que pretendem prestar vestibular, ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) ou mesmo por curiosidade recomendo o site do Professor Fernando Lang da Silveira, onde ele responde a dúvidas de alunos. O assunto da vez é sobre a Terra plana e o avião:

A cinemática e a dinâmica da aeronave em voo paralelo ao solo

Boa tarde,
Tenho acompanhado a discussão a respeito da teoria da Terra plana, que, obviamente, não aceito. Porém, há um ponto insistentemente mencionado por eles, que é o fato de os aviões não realizarem uma correção durante o voo, mantendo-se em trajetórias retilíneas. Em sua argumentação, deveriam inclinar o bico para baixo a fim de corrigir a curvatura “caso a Terra fosse realmente esférica”.
Dessa forma, gostaria de uma explicação que rebatesse essa argumentação, já que meus conhecimentos em Física e Matemática não são suficientes para tanto. Veja que em momento algum ponho em dúvida a certeza da esfericidade, apenas desejo ampliar meus conhecimentos e meu arsenal contra esse mito. Aliás, diga-se de passagem, discutir com terraplanistas é o mesmo que discutir com criacionistas. Em minha opinião, tanto a esfericidade da Terra como a Evolução não contradizem a Bíblia. Esta última, inclusive, chamo, em minha concepção pessoal, de “criação contínua“.
Atenciosamente, RRR

 CREF- Respondido por: Prof. Fernando Lang da Silveira - www.if.ufrgs.br/~lang/

sábado, 14 de julho de 2018

EM DEFESA DA LICENCIATURA pelo professor Francisco Caruso




A solução do problema educacional brasileiro passa, necessariamente, por duas etapas, que se resumem essencialmente na busca da revalorização do Saber. Independente de qualquer política ministerial, este é o compromisso maior que deveria brotar espontaneamente de toda a comunidade acadêmico–científica. As duas etapas a que nos referimos pouco dependem de verbas e s˜ao: a conscientização da responsabilidade e do papel de liderança que cabe a esta comunidade na busca desta solução; a sua capacidade de promover, nas Universidades, uma ampla e profunda reestruturação dos currículos de Licenciatura. A Universidade precisa sair de sua redoma de vidro — sem que isto implique o assistencialismo — e assumir a posição de liderança que lhe cabe na busca da solução do maior problema do país: a Educação Básica. A concretização dessas etapas necessita, por sua vez, crucialmente da autonomia das Universidades e dos Institutos de Pesquisa. Não a autonomia do faz de conta ou a autonomia orçamentária, mas a autonomia construída em nome da revaloriza¸c˜ao do Saber, que, verdadeiramente, assegure e estimule a prática da plena democracia do Saber no meio acadêmico–científico, ou seja: a autonomia que contemple e valorize todas as áreas e atividades intelectuais, sem qualquer discrimina¸c˜ao ou objetivo imediatista ditado por interesses corporativos e/ou por políticas governamentais. Se esta for a essência da proposta de regulamentação do artigo 207 da Constituição, que consagra o princípio da autonomia universitária — anunciada pelo governo para 1995 [1] — estar´a sendo cumprido, em nossa opinião, um dos mais importantes requisitos no sentido de estimular e viabilizar uma reformulação geral de todas as Licenciaturas. Neste ensaio, vamos nos limitar a discutir porque uma mudança profunda da filosofia dos cursos de Licenciatura deve, neste momento, ser considerada a principal contribuição da Universidade `a sociedade brasileira, embora defendamos que o problema educacional deva ser atacado simultaneamente pelos dois extremos, i.e., Licenciatura e Pós–Graduação. Algumas questões referentes `a Pós–Graduação foram discutidas em [2,3]....


Recomendo a leitura desse artigo na íntegra. Acesse o link

sábado, 31 de março de 2018

O ensino médio que se almeja precisa da mobilização maciça da sociedade(Texto da integrante do IVEPESP Vanderlan Bolzani)

Um texto enviado pelo Professor Doutor Helio Dias do Instituto de Física de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

"A manifestação do Ministério da Educação colocando-se contrário à proposta de permitir que 40% da carga curricular do ensino médio seja feita na modalidade de Educação a Distância não poderia ser mais tranquilizadora (jornal O Globo/G1, 20/03/2018 “Medida em debate no CNE pode permitir que ensino médio tenha até 40% das aulas a distância”). Apesar disso, entretanto, a informação revela o momento de dificuldade vivido pela sociedade brasileira ao lidar com uma das questões mais importantes para qualquer país, o sistema educacional. E isso assusta! E por quê? Foram muitas as mudanças feitas no ensino médio nestes últimos tempos, sem que essas mudanças tenham tido um tempo de sedimentação e avaliação de resultados.

Dessa forma, apesar da negativa do ministro, o fato expõe a fragilidade do País frente à necessidade de assumir um programa educacional de excelência, não vinculado ao governo do momento, e sim como uma política de Estado. Notícias dessa natureza, mesmo desmentidas, soam o alarme, pois vale lembrar o ditado popular: onde há fumaça há fogo.

O alerta nos diz que o processo de desestruturação pelo qual passam hoje várias áreas – entre elas a de ciência e tecnologia – é marcado pela falta de compromisso com os interesses do País. Assim, decisões de vital importância, como a qualidade da formação no ensino médio, podem ser tomadas com base em iniciativas pontuais que levam em conta os interesses do “mercado”. Que “mercado”? Um mercado completamente desconectado das sociedades do conhecimento?

A reforma do ensino médio instituída pela Lei 13.415/17 vem sendo criticada por entidades do setor educacional exatamente pelo descompromisso com o ensino público de qualidade. Assim como tem sido criticada pelo propósito de tirar do Estado o papel essencial que lhe cabe no tocante à educação.

O que torna esse quadro mais preocupante é que hoje milhões de cidadãos, pais e estudantes, não sabem o que está acontecendo e o que poderá ocorrer como resultado de mudanças que pioram ainda mais um sistema educacional já claramente pauperizado, como mostram indicadores nacionais e internacionais. Se os resultados das avaliações de desempenho dos estudantes brasileiros já são constrangedores, o que dizer do futuro se uma parcela desses estudantes tivesse sua formação no ensino médio, “a distância”, regida pela lógica do custo e benefício que predomina em muitas escolas particulares? Algumas ainda muito distantes da excelência que preconizam ter.

A questão, e este ponto parece essencial, é que o debate sobre o ensino fundamental e médio, isto é, sobre educação, não pode prescindir dos especialistas da área, mas deve ser objeto de atenção de todos, incluindo professores universitários e pesquisadores. Porque suas implicações se desdobram em todas as direções da atividade social. Os alertas, aliás, têm vindo em grande quantidade, dos especialistas. Como mostra o documento assinado por 13 entidades ligadas à área de ensino, “O desmonte da escola pública e os efeitos da Reforma do Ensino Médio: exclusão, precarização, privatização, desresponsabilização do Estado” (no site da Anped – Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação).


O argumento da comunidade científica, que preconiza investimentos em CT&I como caminho para o desenvolvimento do País, mantém uma ligação orgânica com o debate sobre ensino fundamental e médio. Mais do que nunca é necessário encontrar formas para amplificar esse debate, envolvendo os beneficiários em busca de um sistema educacional robusto para a tão almejada sociedade do conhecimento."

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O que está por trás da Reforma do Ensino Médio?

Há um tempo eu assisti um vídeo do Gregório Duvivier, onde ele fazia um alerta sobre a expansão das universidades privadas no país e sobre o que, ou quem, estaria por trás disso tudo, ou seja: o mercado.
Vídeo  


Com a aprovação da reforma do Ensino Médio, muita coisa eu já previa e elas, com certeza, não são favoráveis para a sociedade, para a educação e muito menos para o professorado. Nesse artigo da Intercept, isso é dito claramente e nos faz temer pelo futuro do nosso país:



20 de Outubro de 2017, 12h49
O PRESIDENTE DO Banco Central, Ilan Goldfajn, foi convidado pela rádio CBN, em setembro, a dar uma entrevista para comentar como os investidores estrangeiros estão otimistas sobre o futuro da economia brasileira. Ele contou que esteve em Nova York e que, “apesar da nossa incerteza doméstica, eles têm demonstrado muita confiança no nosso desempenho recente”. Eis como ele explicou o surgimento dessa onda de otimismo entre a elite financeira global sobre o desempenho brasileiro:
“Houve uma mudança, já faz vários meses, na direção da política econômica: teve uma responsabilidade maior em termos de contas públicas, teve reformas como o teto dos gastos, que foi aprovado no final do ano passado, teve algumas outras reformas como a reforma trabalhista, a reforma da educação, teve mudanças que permitiram os leilões….” [grifo adicionado pela repórter]
Ora, por que incluir a reformulação do ensino médio na lista de medidas econômicas? E por que ela traz felicidade a investidores internacionais? Mais que um ato falho, quando o presidente do Banco Central cita uma mudança na política educacional como parte das políticas econômicas, revela a lógica por trás do “novo” ensino médio: a educação deixa de ser efetivamente tratada como um direito e passa a ser encarada como mero serviço a ser precificado.
Essa visão vai de encontro ao lema bradado país afora em outubro de 2016 pelos estudantes que ocuparam suas escolas contra a reforma. “Educação não é mercadoria”, repetiam os jovens participantes da Primavera Secundarista. Com as mudanças aprovadas e uma série de cortes feitos no orçamento da educação, ganham os que pensam exatamente o oposto e que, por isso, fizeram da crise na educação pública uma oportunidade de mercado.

Alunos ocupam Colégio de Samambaia (Brasília) em ato contra a reforma do ensino médio.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Cortes no financiamento do ensino superior combinados à reforma do ensino médio despertam o paladar do mercado pela educação básica

Este ano, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) teve 100 mil vagascortadas. Além disso, o Ministério da Educação reduziu de R$ 7 mil para R$ 5 mil o teto de financiamento mensal por universitário. Derrubou-se, assim, um dos alicerces orçamentários das faculdades particulares, principalmente aquelas voltadas para as classes C e D. Como reação ao forte impacto em suas finanças e ao aumento na inadimplência, acionistas dos dois maiores grupos empresariais deste mercado — Estácio de Sá e Kroton — voltaram seus olhos para o ensino básico.

Ocupação de escola em outubro de 2016: secundaristas protestavam contra a reforma.

Foto: Mídia Ninja

A Kroton Educacional surgiu em 2007, quando a Rede Pitágoras de colégios e cursos abriu capital na bolsa de valores e passou a adotar o novo nome. Nos últimos 6 anos, a empresa vinha focando no ensino superior: comprou e se fundiu a outros conglomerados de faculdades até se tornar a empresa com o maior número de matriculados no ensino superior do país — um milhão — e com 15% de participação de mercado.
Hoje estão sob sua alçada seis faculdades, com destaque para a Anhanguera, que possui campi em 20 estados e no Distrito Federal. O objetivo da Kroton era chegar a sete instituições de ensino, mas o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vetou a compra da Estácio por acreditar que a operação seria anticompetitiva. Se a fusão não tivesse sido barrada, teria criado um gigante de 1,4 milhão de alunos, controlando 25% do ensino superior privado do país.
Impedida de comprar sua principal concorrente e afetada pelos cortes no Fies, a empresa decidiu retornar às origens. A Kroton quer comprar 16 colégios — ou, nas palavras da mídia especializada em economia, “ativos em educação básica” —, três já estão em fase final de negociação.
Mercado altamente lucrativo e estável
O mercado financeiro demonstrou gostar da mudança de estratégia da empresa. Em fevereiro, quando a Superintendência-Geral do Cade impugnou a compra da Estácio e encaminhou o processo para julgamentodo tribunal do Conselho, as ações da Kroton registraram o menor valor do ano até agora: R$12,55. No dia em que a empresa anunciou estar prestes a fechar sua primeira compra de um colégio, no início de outubro, as ações alcançaram o maior preço, negociadas a R$ 21,23.
Índices semelhantes foram registrados pela holding Bahema, que resolveu ir às compras no segmento da educação básica às vésperas da aprovação da Reforma do Ensino Médio. A holding nasceu como uma empresa de máquinas agrícolas, foi sócia minoritária em negócios como Unibanco e Pão de Açúcar e, agora, comprou três grandes escolas no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo. Mais uma vez, o mercado financeiro respondeu de maneira efusiva: as ações da holding tiveram alta de 23,33%.
Enquanto 2% deixaram de pagar as mensalidades escolares, 6% preferiram deixar de pagar a conta de luz
Segundo a consultoria Hoper, o mercado de colégios particulares movimenta R$ 67 bilhões ao ano no Brasil, enquanto o das universidades envolve R$ 55 bilhões. Além de gerar mais dinheiro, a educação básica é prioridade entre os investimentos dos brasileiros. Um estudo da SPC Brasilavaliou as medidas de contenção de gastos adotadas entre as famílias atingidas pelo desemprego no último ano: enquanto 2% deixaram de pagar as mensalidades escolares, 6% preferiram deixar de pagar a conta de luz.
Diante desses números, a educação básica é vista não apenas como fonte de lucro, mas também como um nicho de mercado estável e confiável. Afinal de contas, mantém os clientes fidelizados por até 12 anos, do primeiro ano do ensino fundamental ao último do ensino médio.



Ato dos secundaristas realizado em 2016 contra a máfia da merenda em São Paulo foi reprimido pela PM e um estudante foi preso.

Foto: Mídia Ninja

Empresário decidiu investir no ensino médio assim que a reforma foi anunciada
De olho nesses clientes de longo prazo, o maior acionista da Estácio também decidiu seguir a tendência e centrar esforços no ensino básico. Chaim Zaher e sua filha, Thamila Cefali, se afastaram do conselho administrativo da faculdade em outubro de 2016 para se dedicarem a um projeto novo de escola. A decisão foi tomada semanas depois de a Medida Provisória que deu origem à reforma do ensino médio ter sido enviada ao Congresso.
Zaher é o fundador do Sistema Educacional Brasileiro (SEB), composto por 13 instituições, da educação fundamental ao ensino superior. Seu projeto é deixar o SEB como legado para a filha administrar. Em 2010, o grupo comprou escolas, investiu no crescimento das instituições e depois vendeu as ações para a multinacional Pearson, especializada em educação com ativos em 70 países. Este ano, o SEB comprou de volta essas mesmas redes de ensino por um preço menor que o recebido anteriormente — o negócio envolve 190 escolas e 70 mil alunos.
Não que a escola gerenciada pelos Zaher seja ruim, pelo contrário: a empresa oferece um modelo educacional moderno, com professores treinados por respeitados especialistas, altos salários e dedicação exclusiva. É um modelo de escola particular voltado para a classe A, que adota o currículo “flexível” estabelecido pela reforma do ensino médio e ainda o leva além, com aulas optativas até para alunos do fundamental. As mensalidades giram em torno de R$ 6,5 mil reais – e ainda assim há filas de espera.
É claro que essa não é a realidade de todas as escolas particulares do país. A “modernização” não deverá chegar às escolas mais baratas, que devem apenas adaptar as ideias do novo ensino médio ao seu já tradicional formato de “terceirão”, focado em aprovação no Enem. Em vez de ter uma turma de “terceirão”, serão cinco, um para cada área de conhecimento criada pela reforma. É o que explica Fernando Cassio, pesquisador na área de políticas educacionais e professor da Universidade Federal do ABC.
“Existem duas categorias de educação privada: as de elite e as que atendem às classes B e C. Esse último tipo absorve o discurso público de flexibilização, mas adapta a sua lógica de oferecer um produto para o mercado. Então essas escolas, que são apostiladas e funcionam em formato de ‘terceirão’, vão absorver os conceitos da reforma do Ensino Médio a partir das práticas que miram o vestibular, que são as práticas que eles sempre adotaram”.
Compreendendo esses diferentes perfis de “consumo”, o modelo de negócio do grupo SEB busca diversificar a oferta. Um dos projetos é formar uma rede de “segmento econômico”, com mensalidade a R$ 550. “A meta é abrir capital em 2018. Para chegar lá, queremos nos consolidar como uma companhia com escolas de referência em diferentes nichos”, explicou Zaher ao O Globo.

Dia de Paralisação Geral em 2016 lotou as ruas de Belo Horizonte (MG) com trabalhadores, e secundaristas.

Foto: Mídia Ninja

Modernizador e atraente para a rede particular, “novo ensino médio” é impraticável na rede pública
“Você não consegue implementar essa estrutura proposta na estrutura de financiamento como a que temos [na rede pública]”, resume Fernando Cassio. Ao estabelecer cinco áreas de conhecimento (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Formação Técnica), exige-se um número maior de professores e uma maior especialização desses profissionais, o que significaria um aumento expressivo no investimento em educação.
No fim, o aluno da rede pública não terá a mesma possibilidade de escolha.
O problema é que só existe oferta de ensino médio público regular em 55% dos municípios e, ainda assim, o quadro de professores é deficitário, dentro de um contexto de congelamento de gastos aplicado pelo governo. Para conseguir implementar o novo ensino médio, a solução prática mais próxima da realidade seria dividir as escolas públicas nas cinco vertentes, o que levaria à criação de ilhas de referência e à limitação do acesso à educação.
No fim, o aluno da rede pública não terá a mesma possibilidade de escolha. “Quando falamos que o ensino médio será composto pelas quatro áreas do Enem e pelo ensino técnico, sabemos que, em muitos casos, a escola vai fornecer apenas uma ou duas opções de aprofundamento, principalmente em cidades pequenas”, explicou Renato Janine, ex-ministro da educação e professor da USP, em entrevista à Carta Capital.
Larissa Coelho, 18 anos, participou do movimento no Colégio Pedro II de Realengo, na zona norte do Rio de Janeiro e entende que isso representará um aprofundamento de uma desigualdade de oportunidades que já existe.:
“Essa ideia de possibilidade de escolha sobre o que se vai fazer é uma falácia. O aluno da escola pública, que muitas vezes precisa logo colocar dinheiro dentro de casa, não escolhe fazer o técnico, é movido pela necessidade. E nem considera a faculdade, porque isso não é permitido a ele.”
De olho no orçamento público
Enquanto as empresas do setor de educação buscam criar um novo mercado com alta lucratividade investindo pesado em escolas particulares, na educação pública, a dificuldade de adaptação ao novo formato abre caminho para que ponham as mãos no orçamento do Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) via contratos de Parcerias Público-Privadas (PPPs). O fundo teve um orçamento de R$ 136,9 bilhões no ano passado; um valor que representa, aproximadamente, 80% do investimento público total feito em educação básica no país.
Para ter acesso aos recursos públicos sem ter que arcar com os custos pesados de infraestrutura que rede pública demanda, a estratégia das empresas é investir em gestão educacional ou outros serviços como parcerias para “ensinar” aos profissionais das redes municipais e estaduais os conceitos do novo modelo de modernização do ensino, workshops para seus gestores se qualificarem segundo a lógica de produtividade empresarial, e consultorias para traçar a estratégia de adaptação ao novo ensino médio.
O Instituto Ayrton Senna é um dos que apostam nesse mercado desde 1994. Está trabalhando em Parcerias Público-Privadas com diferentes secretarias estaduais de educação para implementação do formato do “novo ensino médio”. Ricardo Paes de Barros, economista-chefe da instituição, não mediu palavras para falar da empolgação com a possibilidade de terceirização à revista Isto é Dinheiro em setembro: “No futuro, não tem razão nenhuma o estado gerenciar individualmente professores e escolas”.
Animados pelo pique do mercado financeiro, investidores que sequer têm experiência no ramo tentam se aventurar. A justiça de Goiás, por exemplo, teve que suspender em janeiro deste ano uma licitação para terceirizar a gestão de escolas da rede estadual. O motivo: as empresas escolhidas não demonstravam ter capacidade nem experiência para desempenhar a tarefa.”