Tenho me perguntado isso nos últimos dias, quando tive conhecimento de alguns fatos. Como professora do estado tento ensinar aos meus alunos o conceito de ética, a tanto já esquecido, e pior, esquecido por pessoas que deveriam, por obrigação, ser exemplo dela. Deixo com vocês a postagem do professor Adonai Sant'Anna, que já fomos parceiros em uma postagem anterior sobre uma denúncia sobre o SARESP. Boa leitura!
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Aproveitando, deixo um texto que publicado hoje, dia 21/12/14, no jornal Folha de São Paulo, sobre o assunto para quem quiser se aprofundar e o grupo do Universo Racionalista convidou o Doutor Marcos Eberlin, principal mentor do Design Inteligente, para um hangout que promete estrear em janeiro. Não podemos perder!

"A caixa-preta do design inteligente
Por Maurício Tuffani
21/12/14 03:33
O movimento negacionista da teoria da evolução de Charles Darwin (1809-1892)
voltou a ser notícia recentemente ao realizar em Campinas (SP) o 1º Congresso
Brasileiro do Design Inteligente. Há poucos dias, organizadores desse evento
contestaram um manifesto em defesa da evolução de professores e pós-graduandos
da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Essa tréplica foi
noticiada na quinta-feira (18.dez) por meu colega Reinaldo Lopes em seu blog
“Darwin e Deus”.
Diferentemente do criacionismo tradicional, a teoria do design inteligente
(TDI) não é baseada na interpretação literal bíblica sobre a criação do mundo e
dos seres vivos. Não há entre os cientistas adeptos dessa teoria partidários da
ideia de que o universo existe há menos de 6 mil anos.
Os adeptos da TDI alegam que a evolução por meio da seleção natural é uma
teoria em crise porque que não consegue explicar diversas etapas da
transformação dos seres vivos a partir de primitivos compostos orgânicos, há
centenas de milhões de anos. A única explicação possível para essas lacunas,
segundo a TDI, é a de que etapas cruciais dessas transformações resultaram da
interferência de uma instância inteligente.
Na TDI não há sugestões de modelos explicativos para superar o alcance da
teoria da evolução (TE). As inovações propostas pelo design inteligente são
conceitos destinados a apontar limites da seleção natural. Exceto por sua
postulação sobrenatural, a TDI não tem referenciais próprios, mas somente da
teoria que pretende substituir. Sua agenda é reativa, pautada pela negatividade
e sem um foco concreto na ampliação do conhecimento.
O design
Ao questionar o modelo darwinista, os adeptos da TDI afirmam que os avanços da
bioquímica a partir dos anos 1950 revelaram que a origem da vida envolveu
transformações complexas e impossíveis de terem sido realizadas sem a
interferência externa de uma atividade inteligente. Eles chamam essa
intervenção de planejamento ou design inteligente.
Em seu livro de 1996, o bioquímico Michael Behe, da Universidade Lehigh, nos
estados Unidos, um dos principais defensores dessa teoria, afirmou:
“A necessidade de controle é óbvia no caso das máquinas que usamos na vida
diária. Uma serra que não pudesse ser desligada seria um grande perigo, e um
carro sem freios tampouco teria utilidade. Sistemas bioquímicos também são
máquinas que usamos na vida diária (quer pensemos nelas ou não) e também têm de
ser controladas.”
(Michael Behe, “A Caixa-Preta de Darwin: O desafio da bioquímica à teoria da
evolução”, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1997, pág. 161)
Em sua resposta ao manifesto da UFRGS, os adeptos brasileiros da TDI, liderados
pelo químico Marcos Eberlin, da Unicamp, destacaram, mas sem justificar
devidamente com referências, que as chances para a origem da vida na Terra há
centenas de milhões de anos teriam sido de uma para um número representado pelo
algarismo “1” seguido por 10.123 zeros (1/1010123).
Em 29 de abril de 2010, em sua palestra de encerramento do 3º Seminário
Internacional Darwinismo Hoje, na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São
Paulo, Eberlin mostrou uma probabilidade maior, que seria de um quociente com
195 zeros (1/10195), mas alegando que ela não seria alcançada nem mesmo por
todos os recursos probabilísticos do universo.
Refutações
Ao se contrapor à TDI e até mesmo ao criacionismo bíblico, evolucionistas
muitas vezes incorreram em graves erros do ponto de vista epistemológico e até
mesmo do lógico. A principal bobeada tem sido a afirmação de que a seleção
natural é “cientificamente comprovada”.
Na epistemologia, até mesmo aqueles que não simpatizam com o trabalho do
filósofo da ciência austríaco Karl Popper (1902-1994) reconhecem a demolição
por esse pensador da crença cientificista de que uma teoria pode ser provada.
Seu clássico “A Lógica da Pesquisa Científica”, de 1934, deixou definitivamente
claro que uma teoria pode ser corroborada por observações e experimentações —ou
seja, sobreviver à confrontação empírica— ou refutada por elas, mas nunca pode
ser comprovada.
Popper, no entanto, não era um refutacionista ingênuo. Assim como outros
estudiosos da epistemologia desde essa sua obra, ele sabia que do ponto de
vista prático é razoável admitir explicações casuístas (“ad-hoc”) para
anomalias, de modo a preservar as teorias, principalmente na falta de
alternativas para substituição.
Essa opção pela preservação da teoria em face de anomalias é ressaltada por
muitos adeptos da TDI ao se insurgirem contra o darwinismo, como mostra a
citada resposta de seus adeptos brasileiros ao manifesto da UFRGS:
“(…) poderíamos mencionar aqui quase uma centena de artigos científicos, de
renomados e abalizados cientistas evolucionistas, questionando a robustez de
alguns aspectos fundamentais da TE no contexto de justificação teórica e que
apontam para outra direção.”
Paradigmas
É com base nesse ponto que alguns defensores da TDI têm invocado o trabalho do
físico teórico e historiador da ciência norte-americano Thomas Kuhn
(1922-1996). Em seu livro “A Estrutura das Revoluções Científicas”, de 1962,
esse autor mostrou porque nem sempre a confrontação empírica é decisiva na
preservação ou substituição de teorias.
Kuhn estabeleceu o conceito de “paradigmas”, que são compromissos conceituais,
metodológicos e instrumentais compartilhados pelos membros de uma especialidade
científica durante um determinado período. Um paradigma, diz Kuhn, dirige a
pesquisa científica para a articulação dos fenômenos já definidos por ele e
reforçados pela educação profissional. Segundo o autor:
“A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de
fenômenos; na verdade, aqueles que não se ajustam aos limites do paradigma
freqüentemente nem são vistos”.
(Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, Editora Perspectiva,
São Paulo, 1982, pág. 45)
Afirmações como essa têm sido aproveitadas por defensores da TDI, para os quais
revisões críticas dentro do próprio darwinismo deveriam levar a refutações à
TE. Esta, no entanto, segundo os antievolucionistas, conseguiria prevalecer por
ser amplamente majoritária nas universidades e instituições de pesquisa. Como
afirmou Behe em seu livro já citado,
“Muitas pessoas, inclusive importantes e renomados cientistas, simplesmente não
querem que um ser sobrenatural afete a natureza, por mais curta ou criativa que
essa intervenção tenha sido.”
(Behe, “A Caixa-Preta de Darwin”, pág. 245).
Zona de conforto
Lamentavelmente, grande parte dos pesquisadores evolucionistas jamais se dispôs
a responder às críticas de adeptos da TDI. Certos de conseguirem manter as
publicações acadêmicas praticamente imunes à apresentação e à aceitação de
artigos contrários à TE, muitos cientistas têm optado por ignorar essas
contestações.
Na imprensa, por sua vez, muitos jornalistas e editores de ciência não têm dado
espaço para abordagens sobre o assunto, seja pela escassez de artigos
devidamente avalizados sobre a TDI, seja por considerarem essa teoria como um
criacionismo disfarçado de ciência.
No caso dos argumentos epistemológicos, essa indisposição para o debate foi
ainda maior, menos movida pela indiferença provida da zona de conforto do que
pelo fato de que lógica e filosofia da ciência geralmente não são disciplinas
prioritárias na formação de cientistas.
Assombrações
De um modo geral, as manifestações acadêmicas sobre a TDI têm ocorrido sob a
forma de documentos coletivos de entidades científicas ou de grupos de pesquisadores,
como foi o caso do posicionamento na UFGRS. Em que pese a pertinência de
argumentos apresentados, esse procedimento tem sido pouco eficiente para
promover um debate sobre o assunto. Para a maioria tem servido muito mais como
uma forma de recusa de debate. Felizmente também têm surgido blogs ou redes
sociais de evolucionistas com boas contribuições, mas com alcance restrito.
Com essas e outras, o fantasma criacionista empurrado pela academia e pela
imprensa para dentro do armário tem conseguido muitas vezes explorar o vazio
deixado na opinião pública por cientistas e jornalistas.
Contra essas assombrações, os poucos antídotos disponíveis de maior alcance
mais recentes têm sido alguns livros de divulgadores da ciência como “Deus, um
Delírio” (2006), do geneticista britânico Richard Dawkins, e “Quebrando o
Encanto” (2006), do filósofo da ciência e neurocientista norte-americano Daniel
Dennett, e a série de televisão “Cosmos: Uma odisseia no tempo”, do astrônomo
norte-americano Neil deGrasse Tyson e remake de “Cosmos: Uma viagem pessoal”,
de 1980, idealizada e apresentada pelo astrônomo Carl Sagan (1934-1996).
Falácias
Na verdade, o apelo aos clássicos da epistemologia em favor da TDI só é
possível por meio de falácias, a começar pela incompatibilidade com a proposta
do planejador inteligente como axioma não só para a biologia, mas também para a
paleontologia, a bioquímica e outras áreas associadas à evolução. Como exemplo
dessa formulação, recorrerei novamente a Michael Behe, que é um dos defensores dessa
teoria menos enfáticos no proselitismo religioso.
“Há um elefante em uma sala cheia de cientistas que tentam explicar o
aparecimento da vida. O elefante é rotulado de ‘planejamento inteligente’. Para
uma pessoa que não se sente obrigada a restringir sua busca a causas
não-inteligentes, a conclusão óbvia é que muitos sistemas bioquímicos foram
planejados. Eles foram desenhados não por leis da natureza, pelo acaso ou pela
necessidade; na verdade, foram planejados. O planejador sabia que aparência os
sistemas teriam quando completos, e tomou medidas para torna-los realidade em
seguida. A vida na Terra, em seu nível mais fundamental, em seus componentes
mais importantes, é produto de atividade inteligente.”
(Behe, “A Caixa-Preta de Darwin”, pág. 195)
Além de não apresentar um modelo explicativo alternativo ao mecanismo da
seleção natural, essa postulação gera graves implicações não só em seus
aspectos epistemológicos, mas até mesmo do ponto de vista lógico.
Sem confrontação
A ser aceita como verdadeira a hipótese de uma “mente inteligente” condutora da
transformação dos seres vivos, e adotada como princípio fundamental para a TDI,
essa teoria se torna ambiguamente capaz de deduzir não só uma predição expressa
por um enunciado A como também seu contraditório não-A.
Embora espera-se que os adeptos do design inteligente não se atrevam a cometer
o disparate de realizar deduções desse tipo, a simples contaminação da TDI por
essa possibilidade impede essa teoria de ser confrontada empiricamente por meio
de observações ou experimentos.
Em outras palavras, as inferências ou deduções a partir do axioma central da
TDI não poderão ter conteúdo empírico, ou melhor, não atenderão ao requisito da
falseabilidade, formulado por Popper como critério de demarcação entre as ciências
empíricas e outras formas de conhecimento. Tudo estará subordinado à vontade de
uma “mente inteligente” capaz de direcionar as mutações para qualquer direção
que se queira, seja pela vontade do designer sobrenatural ou da conveniência de
seus criadores mundanos.
Teoria estéril
A falta de um modelo explicativo que seja uma alternativa à seleção natural é
uma omissão muito mais grave que as lacunas dos registros fósseis ou as faltas
de explicações para determinadas transições evolutivas.
No final das contas, as principais formulações teóricas dos proponentes da TDI
são muito mais objeções à TE. É o caso, por exemplo, do conceito de
complexidade irredutível, descrito por Behe:
“Com irredutivelmente complexo quero dizer um sistema único composto de várias
partes compatíveis que interagem entre si e que contribuem para sua função
básica, caso em que a remoção de uma das partes faria com que o sistema
deixasse de funcionar de forma eficiente.”
(Behe, “A Caixa-Preta de Darwin”, pág. 48)
Em outras palavras, o conceito de sistema irredutivelmente complexo serve para
definir o que não poderia ser explicado pela seleção natural. Embora o próprio
Behe admita em seu livro que nem tudo o que não tem explicação não pode ser
considerado impossível de vir a ser explicado (pág. 179), o autor
lamentavelmente formulou esse conceito que a priori rejeita a possibilidade de
virem a serem formuladas explicações evolutivas para esses sistemas a partir de
outras estruturas.
Desse modo, no conceito de complexidade irredutível há uma boa dose de aposta
naquilo que os lógicos chamam de falácia do “argumentum ad ignorantiam”, o
qual, trocando em miúdos, equivale à afirmação de que se não conheço uma coisa,
ela não existe.
Em que pesem as críticas a Michael Behe, é preciso reconhecer que ele e alguns
proponentes da TDI têm se mantido distantes da militância obscurantista de
criacionistas bíblicos e suas instituições. Infelizmente, esses bons exemplos
de independência não têm sido seguidos por todos adeptos do design inteligente.
Boa parte deles parece muitas vezes apostar nas mesmas ingerências religiosas
espúrias no plano da ciência que foram fomentadas e acirradas desde a primeira
metade do século 20.
Acirramento
Os apelos de adeptos da TDI à obra de Thomas Kuhn começaram como argumentos em
favor da mudança paradigmática por meio do reconhecimento dessa teoria pela
academia. No entanto, isso não seria possível mesmo que houvesse na TDI um
modelo explicativo alternativo à seleção natural e não se fundamentasse em um
axioma incompatível com a falseabilidade. Na verdade, a teoria de Kuhn não
formula nenhuma obrigação de substituição de um paradigma por outro mais novo.
Segundo esse pensador,
“A competição entre segmentos da comunidade científica é o único processo
histórico que realmente resulta na rejeição de uma teoria ou na adoção de
outra.”
(Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, pág. 27)
No entanto, os apelos de adeptos do design inteligente ao pensamento de Kuhn já
passaram há algum tempo para outra linha de ação, que é a da desqualificação
dos seus contrários. Ou seja, a obra desse autor passou a ser invocada para
culpar a academia por não reconhecer a TDI e por não serem aceitos pelos
periódicos de prestígio os artigos baseados nessa teoria. É uma afronta ao pensamento
de Kuhn sua obra servir como álibi para a precariedade epistêmica do design
inteligente.
Na verdade, a TDI tem dado razões de sobra para ser rejeitada pela academia,
seja pelo envolvimento com as hostes do criacionismo bíblico, seja por sua
precariedade epistêmica. Essa fragilidade se deve não só a seu fundamento
sobrenatural e avesso à confrontação empírica, mas também à falta de modelos
explicativos e a seus conceitos destinados apenas a negar a evolução.
Longe de ter seu foco na ampliação do conhecimento, a agenda da TDI é reativa e
referenciada na teoria que pretende demolir. Essa agenda de orientação negativa
é a verdadeira caixa-preta do design inteligente."